É fácil um cliente meu me transformar em cliente seu. Se você duvida, experimente me contratar. Deve ser influência de minha mãe, que me ensinou a ser grato ao Banco do Brasil que contratava meu pai. O banco garantia o salário que permitia pagarmos nossas contas e contrair outras.

Como o mesmo banco já me contratou várias vezes, devo muito a ele, inclusive a obrigação de falar bem. Gosto de falar bem de meus clientes, pois quando eles crescem, eu cresço também. Quanto melhor eles saem na foto, melhor saio eu, que faço parte de sua cena. A relação é simbiótica. Você não pensa assim? Conheço gente que não.

Outro dia ouvi um consultor dizer: "Meu cliente é burro, só faz besteira". Se ele conseguisse ler meus pensamentos saberia que concordei imediatamente. Devia ser muito burro para contratar alguém assim.

Não apenas promovo meus clientes - acabo virando cliente deles. No supermercado, vou direto no café solúvel Iguaçu, que vem com o slogan "O mais cremoso". Depois que fui contratado pela empresa, virei fã. E como poderia ser diferente, se para motivá-los a vender eu precisava acreditar no que vendem?

Por isso não atendo fabricantes de armas, munições e cigarros, ou organizações religiosas. Não me sinto motivado a promover suas marcas ou ajudá-los a crescer, pois não estou inclinado a usar seus produtos e serviços.

Devo confessar que não é fácil ser cliente fiel de quem me contrata. Quer um exemplo? Até agora pneu para mim é Goodyear, mas o que fazer se outros fabricantes me contratarem? Devo rodar com quatro pneus diferentes? Bem, eles vão precisar pagar para descobrir.

Se leu até aqui não o culpo por torcer para eu ser logo contratado por um hospital psiquiátrico. Pode apostar que tem sido difícil viver com essa mania de usar produtos e serviços de empresas que me contratam. Chega a ser aterrorizante.

Não faz muito tempo fui consultado para uma palestra para funcionários de uma penitenciária. Outro pedido veio de um evento para donos de funerárias. Não me neguei a atendê-los, mas fiquei aliviado por não me contratarem. Agora, cada vez que o telefone toca, eu tenho um sobressalto. E se for a De Millus?

Mario Persona é palestrante, professor e consultor de estratégias de comunicação e marketing.

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